Estas piernas húmedas no me pertenecen

 

Estas piernas húmedas no me pertenecen.
Caminan junto a mí, pero no son las mías.
Mi corazón sabio me sugiere que no me asuste, porque no son mías.
Mis piernas han desaparecido,
suplantadas por trozos de carne húmeda que no reconozco, que olvido.

El azul de los brazos,
la devoción de los labios,
el giro de la cabeza hacia el firmamento. Universo negro.

Creador de paraísos ajenos, ¿en qué dirección buscarte?

Virajes, latitudes, orientación en brújula.
Vergel de verdes pájaros y sonidos mansos,
explícame en qué cumbre. Explícame cómo. Y dime, ¿por qué esa altura?
Semejante altura para seres tan diminutos.

No puedo interrumpir ahora la huida. Iniciada está y seguiré.
Las piernas no mías me orientan.
Observador de mi escasez, háblame.
¿Cómo sabré que puedo detenerme?

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Traducción al portugués: Alberto Augusto Miranda

 

As não-minhas pernas

Estas pernas húmidas não me pertencem.
Caminham comigo mas não são as minhas.
O meu coração sábio sugere que não me assuste porque não são minhas.
As minhas pernas desapareceream,
suplantadas por tocos de carne húmida que não reconheço, que esqueço.

O azul dos braços,
a devoção dos lábios,
a volta da cabeça até ao firmamento. Universo negro.

Criador de paraísos alheios, em que direcção te procurar?

Viragens, latitudes, orientação por bússola.
Pomar de verdes pássaros e sons suaves,
explica-me em que cimo. Explica-me como. E diz-me: porquê essa altura?
Tanta altura para seres tão diminutos.

Não posso interromper agora a fuga. Iniciada está e continuarei.
As pernas não-minhas orientam-me.
Observador da minha escassez, fala-me.
Como saberei que posso parar?

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